Sunday, March 21, 2010

Palavras para quê?


A gramática portuguesa sempre me deu as voltas que eu não dava nos livros que a estudavam. A verdade é que nunca fui grande entusiasta dessa companheira incondicional da verve nacional. Desagrada-me a ordem, estruturas e definições rígidas que se tentam impor no etéreo em que consiste um sentimento! Como cingir em frases ordenadas, limitativas sujeitas a tantas regras, a magia desorganizada de uma esperança ou a arritmia anarquista do bater de um coração que gosta ou a angústia disfuncional de alguém que sofre?

Que injustiça maior existirá ao condensar o que de mais forte podemos sentir em meras palavras não tão raras vezes pobres na sua forma, ou então pecando por manifesta falta de intensidade lírica, quantas vezes não nos encontramos à procura da palavra certa para exprimir o que um simples olhar triplicaria em força e simbologia?

Serão os poetas e filósofos privilegiados iluminados por o fazerem bem? Serão mais merecedores de felicidade por terem neles o dom da escrita? Sentirão mais por isso? Serão mais sensíveis, mais felizes? mas o que nos faz felizes afinal? Uma frase bem construída ou o sentimento que pulula no que é escrito mesmo que despido de elegantes adjectivos? Quantos não possuem a virtude da boa escrita a capacidade de fazer sonhar quem os lê mas têm nos actos maior veracidade e intenção que outros mais prosaicos mas nos quais nada habita senão um cemitério de letras, artigos e pleonasmos?

E faltando a arte não corre o colorido, a paixão e dedicação com que algo é escrito, o risco de serem apenas visíveis aos olhos de quem escreve?

Acho ridículo sujeitar o que sentimos a meras virgulas, que se não colocadas correctamente desvirtuam o que de mais puro pode existir num pensamento. A vida não tem virgulas nem parágrafos, tem quanto muito a incerteza de um ponto de interrogação ou a indefinição das reticências, Como confiar em palavras que todos utilizam com maior ou menor veracidade, que são repetidas à exaustão perdendo o valor e o significado, ficando vulgarizadas!

Como a palavra amor, que outra palavra encerra em si tamanha vulnerabilidade aos lábios de quem a profere? Vivendo na flutuação da sinceridade tanto de quem a fala como de quem lhe responde.

As palavras são para mim fracas de carácter, influenciáveis, permissivas a maus costumes e más companhias, peno-me por precisar delas, peno-me que por vezes seja o único meio para transmitir o que penso, sabendo que o toque, um abraço apertado, dedos entrelaçados, um olhar, as calariam sem temor, deixando-as constrangidas e envergonhadas pela sua insignificância nesses momentos perfeitos, momentos em que elas são simplesmente dispensáveis e em que o silêncio nos envolve numa confortável e serena cumplicidade e compreensão.


13 excelentes comentários:

Anna said...

Compreendo. Sem dúvida que, por vezes, a subversão pode permitir exprimir de forma muito mais perfeita (se é que isso existe) uma ideia, um sentimento, o que for...

Nada contra o improviso, a experimentação gramatical... Revolto-me, isso sim, contra a incorrecção propriamente dia. Entendo a ausência de vírgulas, por exemplo, como um desenhar de um pensamento contínuo cuja intensidade se perderia com quebras; em contrapartida, não aceito, de todo, que gilhotinem a ligação entre um sujeito e um verbo com um desses pequenitos e aparentemente inofensivos sinais de pausa...

Quanto à fraqueza e permissividade das palavras, sim, tens razão... pecam pela sua incapacidade de nos deixar desenhar com elas toda a intensidade do que queremos dizer... e por isso mesmo, a opção pela sua ausência é a melhor solução, em algumas situações...

Ela said...

Para quem se marteriza por depender das palavras, fá-lo de uma forma que mostra mais amor que pena.

nuno said...

Anna...
"pecam pela sua incapacidade de nos deixar desenhar com elas toda a intensidade do que queremos dizer" Acho que aqui practicamente resumes o que eu queria dizer!

Ela...
:) é uma relação amor/ódio vá. a verdade é que por vezes é a única maneira disponivel para dizer o que penso,por isso as culpo de me prenderem nas suas regras !

tomaz said...

nem de propósito! preparo-me para uma frequência de Língua Portuguesa!

odeio gramática.

é tão repressiva...

Maria said...

o moço escreve que é uma maravilha

percebi o post, até partilho a opinião em alguns pontos, mas o facto de escrever assim tão bem quase que contrapõe o que escreve

a sua relação com as palavras é bem melhor do que julga, se calhar

Tulipa said...

As palavras nunca terão a capacidade de expressar os verdadeiros sentimentos, só porque dependem de quem as escreve e mais ainda de quem as lê. kisses

Pipoca dos Saltos Altos said...

E se um dia te roubassem as palavras?

nuno said...

Tomaz...
..e ditadora, e opressiva, e fria, e... acho que já percebeste!
boa sorte para a frequência!

Maria...
quando li "o moço" ainda pensei que fosse alguém lá conterraneo do algarve! :)
agradeço o elogio mas a minha relação com as palavras é de puro interesse egocêntrico! :)

nuno said...

Tulipa...
sem dúvida! sabes que à escrita falta uma condição imprescindivel para uma boa interpretação do que se escreve e do que se lê . A entoação! reporta-me inumeros mal-entendidos em simples sms por essa mesma lacuna.

Pipoca...
como fizeste agora?!?

Maria said...

"o moço" foi naquela de não andar no "tu cá, tu lá" assim logo nos primeiros comentários :)

Pólo Norte said...

Oh Nuno,

Técnico Comercial que se preze não coça as virilhas... ;)

KI said...

Que saudades de passar por aqui. Beijos.

nuno said...

polo norte...
nem cuspir para o chão??!!! ou falar de futebol e pedir uma mini??!!

Ki...
o "espaço" é aberto! :) volta quando quiseres!