Saturday, May 01, 2010

Cama de Segredos




A noite foi longa e ela descansava agora tranquilamente. Parece tão serena, tão relaxada, tão segura no seu ser, no seu mundo, no seu son(h)o .

Sempre lhe encontrei uma beleza deslumbrante daquelas raras belezas naturais que não precisam de ser “trabalhadas” moldadas, pinceladas, esculpidas...
...sempre me perguntei o que levaria mulheres como ela a recorrerem a homens como eu, ausentes e indiferentes a qualquer tipo de compromisso ! Padeceria ela de uma crónica falta de paixão na sua vida social? talvez… ou talvez aquele seu ar de absoluta paz interior explicasse tudo. Talvez aí residisse toda a resposta para este mistério que afinal só era meu, pois nunca lhe perguntei, nem nunca o farei.

Vou chama-la Helena!
Helena, é já uma companhia regular, pouco sei do que escondem as suas perfeitas feições, apesar da longevidade dos nossos encontros. Sei apenas que é uma mulher de sucesso, conhecida e reconhecida pelo seu trabalho, divorciada e aparentemente feliz.
Falamos de muitos assuntos variados, por vezes o mais variados e diversos possível, talvez para evitar entrarmos por campos mais pessoais. É lógico que há cumplicidade, que existe empatia e gosto pela companhia do outro para além da relação física. Mas por mais que se tente poetizar ou colorir, no fundo da questão reside sempre o lado real da completa ignorância de quem somos para além destas quatro paredes que agora nos escudam.

Nunca entrei na sua vida, nos seus demónios ou nas suas euforias a não ser que por distracção ou descuido ela o segredasse, nunca tinha analisado Helena, ou motivações que a levem até mim, para alem da procura obvia do encontro físico, do calor da paixão...ou de um simples toque, e a maior parte das vezes é isso, e apenas isso, contacto!

Acho que numa vida tão stressante que hoje em dia se vive, com ritmos alucinantes e tudo estrategicamente organizado, perde-se o contacto com os outros, o contacto humano. O toque, o cheiro, o sabor! Os sentidos como que adormecem, ficam entorpecidos presos à rigidez de vidas temporizadas, calendarizadas. Ter um momento do dia em que se sabe ser certo despertar sentimentos já terciarizados é lógico que atrai. Ter alguém com quem despertar os sentimentos mais carnais, primários, mordentes, apaixonadamente ferozes não só é tentador como libertador. Por vezes a loucura da paixão puramente física ultrapassa e quebra barreiras que nunca deveriam existir desde o inicio, nem aqui nem longe dos lençóis que agora a escondem por completo como que se apercebendo da minha observação e querendo preservar o mistério do seu ser.

Incuto-me a ideia que não me sinto incomodado com isso, acabei por me habituar ao seu silêncio, à sua distância afectiva, lembro-me do primeiro encontro e como tremia a cada toque na sua pele como se cada impressão digital causasse ferida ou ficasse a queimar perpetuando uma dor que só ela percebia pois pertencia somente à sua memória, tinha-se divorciado à pouco segundo me disse, e a ferida ia bem mais profunda do que a mera superfície da pele. Apenas nos abraçámos, ela apenas quis sentir um abraço à sua volta, sentir-se segura, acompanhada dizia. Foi a vez que mais que falou sobre ela e talvez a única em que realmente se tenha mostrado vulnerável ...

Olho-a novamente e pela primeira vez estremeço e mais do que isso, temo . Temo que a paixão desenvolva e cresça apenas no meu olhar e que o dela continue como agora enquanto dorme, fechado para o meu, fechado em si, fechado neste quarto!


Participação para a Fábrica de Letras

22 excelentes comentários:

meldevespas said...

Gostei desta dissertação, desabafo, sei lá...mas soa como um segredo contado, e isso é muito interessante. Gostei muito da forma como tu/ele teme que a paixão lhe cresça no olhar. Bonito de facto.
Beijinho

Chica said...

Lindo e forte e esse medo de que o desejo do outro não seja o mesmo que sentes. abraços,chica

AR said...

Adorei cada palavra!

Tulipa said...

Muito bom, sem comentários possíveis. kiss

MZ said...

O suposto contacto físico e desejo ardente da atracção pode levar o ser humano bem mais longe - leva-o à paixão e quiçá ainda bem mais longe ainda...
Depois vem o medo, a dúvida de não ser correspondido(a).

Bom texto!

Su said...

Resta tentar usar esse contacto físico para fazer com que os olhos dela se abram. Por vezes é nesses momentos de paixão em que conseguimos dizer tudo... sem nada verdade proferir qualquer palavra.

Excelente post.

tomaz said...

wow...

Gingerbread Girl said...

Nela... se um dia crescer, não será tão cedo. É o sentido de auto-preservação.


bjs*

Teresa said...

Gostei do texto, achei muito interessante esta abordagem da paixão. Afinal, nele está uma paixão, nem que seja a da busca. Nela, talvez já só reste o desejo. Não sei se é paixão.
Bjs

Lala said...

Soberbo. A paixão também nos deixa dúvidas. A paixão é entontecedora. A paixão é bruta. É carne. É vida. Não obstante, muito frágil e medrosa.

Belo desabafo. Amei!

Beijinhos**

Anna said...

Ouvi dizer um dia que numa paixão há sempre um lado que sente tudo com mais intensidade do que o outro... Esse eu que observa Helena no seu sono soa-me mais enamorado do que apaixonado... Porque a contempla e reflecte, olha para trás, para o princípio de tudo; considera o agora, aquele momento depois do calor da paixão em que, adormecida, ela parece finalmente desarmada e, ao mesmo tempo, enigmática; e porque interroga o futuro, com toda a insegurança e incerteza típicas de uma história sem perguntas nem explicações...
Gostei do silêncio pacífico do quarto onde ressoam estas palavras, este pensamento. Gostei.

curvasdapalavra said...

A questão é: até quando os dois manter-se-ão "anônimos"? Não sei se posso arriscar um palpite a partir de uma narrativa apenas, mas penso que esse narrador está prestes a trilhar o caminho dos apaixonados...
Logo, ele perde a noção das coisas, depois vem a visão, que já não enxerga a um palmo de si; seguem-se as palpitações, as taquicardias; os dias felizes, altos, os dias de baixo; muito calor, muito frio, tudo de muito, tudo que excede e falta.
Depois, quem sabe, ele pode até sair vivo disso tudo.

Mas, antes que eu esqueça: belo texto!

Abraço.
Ricardo.

Natália Augusto said...

Esta confissão de uma paixão quase proibida, onde tudo se passa ocasionalmente e quase nada de pessoal é dito, deixa-nos um retrato do que são as relações humanas em pleno século XXI.
Até do toque se tem medo, de uma paixão intensa por ser sempre efémera, uma relação a curto prazo.

Bela participação

tomaz said...

já recuperada da(palavra indicada para descrever o sangue a ferver aqui), resolvo voltar ao blogue e comentar.

"Ter alguém com quem despertar os sentimentos mais carnais, primários, mordentes, apaixonadamente ferozes não só é tentador como libertador", foi aqui que me lixaste...

o problema é exactamente este. privamo-nos da essência que somos para nos camuflarmos de humanos, de maridos, de mulheres, de namorados e namoradas.escondemo-nos dos nossos desejos e voltamos-lhe a cara quando surgem.

existem aqueles momentos, sem palavras, em que o toque certo, o olhar certo nos remontam para a essência do ser, e caso a vida o permitisse, nos levariam à liberdade absoluta.

agora vou ali fumar um cigarro...

caminhante said...

...uma paixão desencontrada? uma paixão solitária...

[gostei muito, senti, contudo, um nó no peito...]

bjos

Helga said...

O desencontro da paixão e o medo do presumível. Adorei este texto, que de alguma forma se assemelha ao que eu própria escrevi para este desafio. Como alguém me comentou por lá... os temerosos amantes, que receiam ir até ao fim...

Sairaf said...

É um texto sem dúvida magnífico...mas o medo de não se ser correspondido na mesma medida é receio de todo o ser humano.
Muitos parabéns por cada sentimento descrito.
Com carinho
Abraços
Sairaf

Rubi said...

Belo texto. Nao tenhas medo de viver...

Videl said...

Antes um medo tremendo de ficar a nadar sozinho do que a sensação vazia de quem já não sabe se ainda consegue mergulhar.

Gostei muito!

Di...vagar said...

Nem sei como vim aqui parar..mas gostei de ter vindo...

S* said...

Existe muita mais gente assim do que se possa pensar... com medo da dor, preferem basear-se em relações infrutíferas, frenéticas e de prazer imediato.

Mouroblog said...

Me convidou para estar no cerne do pensamento do personagem, estive e refleti neste conto quase senti a mulher.
Gostei e gostaria de compartilhar palavras visite-me em
http://mouroblog.blogspot.com/